“O que estou fazendo da minha vida?”

mulherberlim

“O que eu estou fazendo da minha vida”. Faça essa pergunta. Tenha ataque de pânico. Insônia. Angústia. Não durma. “O que estou fazendo da minha vida?”. Daqui a pouco eu faço 50 anos, você sabe, o tempo voa. E o que eu fiz? To aqui em Berlim, ok, eu gosto de Berlim, mas porra, eu tenho que arrumar um trabalho em Berlim e aqui ninguém me conhece. Aqui sou uma passante. O que eu estou fazendo da minha vida?

O peito aperta. Não durmo.

Dois anos atrás. “O que estou fazendo da minha vida”. Eu daqui a pouco faço 50 anos, você sabe, o tempo voa. E eu não casei,  não tenho filho, eu não tenho nem namorado. Eu só trabalho e vou naquelas festas de sempre. Claro, eu tenho uns amigos incríveis. Mas no domingo eles estão com as mulheres ou com os filhos e eu fico em casa vendo TV sozinha e não saio do Twitter. “O que eu estou fazendo da minha vida?.

Peito apertava. Não dormia.

Enquanto escrevo, amigos ao redor do mundo fazem a mesma pergunta em várias línguas e sentem o mesmo nó no peito. Acham que estão fazendo tudo errado e não dormem.

O que estou fazendo da minha vida? Pergunta perigosa e desgraçada que, eu sei, serve para a gente ficar mal. Por um tempo eu não sabia que essa era uma pergunta maldita, enviada pelo meu superego para me ferrar. Uma resposta do meu masoquismo me atacando. Ou inveja de mim mesma, como dizia a minha amada analista. Eu tento calar a voz. Não, não, essa pergunta não! Sai daqui, você, pergunta, você é do mal!

Não é fácil matar essa pergunta. Ainda mais quando olho o instagram e todo mundo parece estar fazendo muita coisa da vida. Estão em uma praia incrivel lendo um livro em francês, estão com os filhos. Estão, sei lá, fazendo ginástica que seja, porque elas têm foco. E eu, o que eu estou fazendo da minha vida? Eu estou aqui olhando o Instagram de pessoas, e eu sei que isso faz mal, assim como faz mal perguntar o que estou fazendo da minha vida.

Desligo o celular e leio um livro. Uma história real pesada de uma moça sobrevivendo na Guerra em Berlim, tendo que escapar de bombas. Sendo estruprada por soldados depois que a Guerra acaba, um horror! Mas a leitura me acalma. É isso aí. Como a moça do livro, o que estou fazendo da minha vida? Sobrevivendo. E aqui nem está em Guerra.

É verdade, os livros salvam. E o instagram faz muito mal.

(*) O nome do livro é “Uma mulher em Berlim”. E é muito bom. Foi lançado no Brasil pela Record.

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9 comentários

  1. Gustavo

    Olha eu não sei o que você está fazendo da sua vida, mas por favor continue escrevendo. E sobre essa pergunta maldita, ela também me persegue desde a adolescência.

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  2. luciana

    sera que um dia essa pergunta cessa de nos atormentar? me fazia essa pergunta a 15 anos, e a 20 e a 30 ..e hoje a quase 45 …continuo me perguntando …. fiz muitas cisas, viajei o mundo, me casei, me divorciei, tenho uma filha onda.. menos amigos (porque depois dos 40 vc seleciona mais) .. moro na italia un pais que sempre sonhei de viver… mas deixei pela estrada, pelo caminho dessa vida que me levou a tantos lugares algumas paixões.. como escrever..ler… criar meu programa de viagens… essa pergunta..essa maldita pergunta que me que faz escrever com tantas reticências, não vai cavar nunca.porque somos humanos e como humanos queremos tudo, tudo que è nosso e tudo que invejamos no outro. e diga-se de passagem, maldito instagram….

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  3. paula

    sinceramente, o mundo só vale a pena pq tem gente que se pergunta isso a fundo. sério mesmo. tenho certeza e pergunto – já viu um filme, leu um livro, ouviu alguma história sobre alguém que sabia o que estava fazendo da vida e agia com certezas? a resposta é não, pq essa pessoa hipotética não vale um livro, nem um filme, nem virar história pra alguem repetir. Pensar assim as vezes me acalma qd essa pergunta me atormenta.

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  4. paula

    esqueci – tem uma coisa que tu faz da tua vida: bem pra mim. eu A D O R O te ler, muito mas muito e penso que o mundo vale a pena pq tem gente como tu existindo ao mesmo tempo que eu. :-)

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  5. Vila Augusta Wrestlers

    Que Viva Nina ! Minha autora favorita da internet,tão contundente quanto Felipe Neto,tão exata como Regis Tadeu,tão bem humorada quanto as charges o Alpino. O que seria desse internauta solitário em busca de vida inteligente na rede não fosse seu olhar,seus comentários e suas brilhantes considerações do universo feminino pós-tudo? O antidoto natural contra o politicamente correto e o deslumbre com a
    Geração Z (que para mim mas parece Geração PQP). Nina,Grande Nina!!! Eu te achei! Agora sei que posso contar sempre com v. Só farei 50 anos em 2017,mas desde já sou convidado a me questionar sobre o sentido da vida neste mergulho em nossas personas. Depressa…Antes do próximo BBB, do Verão de não sei o que venha nos obnublar com suas mentiras. Um grande texto como sempre!!!

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