Desculpe, mas a senhora está louca!

 

mulherlouca

Não, não é assim, morar na Alemanha não é tão bom. O Brasil é maravilhoso. E não, a crise não é tão grande aqui. Lá também não tem trabalho. Imagina, claro que eu gostaria de criar meus filhos em São Paulo. Não sei se criar em Berlim é tão melhor, ok, a escola é de graça, ok, eles podem ir de metrô sozinhos com 7 anos. Ok. Mas falta a energia do Brasil”

O discurso da minha amiga, no taxi, a caminho de Guarulhos, foi interrompido pelo taxista em plena Marginal do Tietê. Depois de ouvir por meia hora o quanto a vida na Alemanha era horrível e a no Brasil maravilhosa, ele olhou para a minha amiga. Muito sério. E deu o diagnóstico:

Desculpe, mas a senhora está louca”.

Talvez ela até estivesse. Mas saibam que a vida de imigrante, ou expatriado, se você quer ser mais chique, é cheio de momentos em que a gente tem que dizer para a gente mesma: “desculpe, mas a senhora está louca”. Essa frase também é dita por outros amigos imigrantes quando percebem que estamos no momento SEA (senhora está louca).

Eu ando tão a senhora está louca depois de quatro meses de inverno que mais parecem quatro anos que ando pensando seriamente em voltar a morar em São Paulo. Escrevo para os amigos do Brasil. E eles respondem: Desculpe, mas a senhora está louca.

E como o Brasil não está mesmo em um momento fácil, as conversas geralmente são assim.

_Ai, estou em crise, estou até pensando em voltar.”

_Então, e eu estou pensando pela primeira vez em sair do Brasil. Não aguento mais esse clima politico. Não dá. Fui multado porque coloquei uma bandeira do PT na janela. Quero ir embora.

_Mas e se eu voltasse, você não acha que…

E de alguma maneira delicada eles me falam: Desculpe, mas a senhora está louca.

Tento fazer terapia comigo mesma. Depois de 20 anos de análise, deve funcionar. No supermercado, eu repito para mim: “Nina, ali, aquela punk, ela faz te sentir bem aqui. São Paulo, Perdizes, shopping Bourbon, essa moça seria até expulsa de lá, isso se ela existisse.” Acalmo. Pego a bicicleta e desafio o meu medo andando rápido pela rua. Vento na cara. É incrivel. Os carros realmente te respeitam enquanto pessoa que está de bicicleta. Eles não te perseguem. Realizo que depois de anos finalmente estou livre do meu pavor de ser atacada por carros, herança de uns 20 anos em São Paulo.

Mas depois eu olho o cinza e penso em ir embora de novo. E preciso repetir: A senhora está louca. Falo com uma amiga sobre mercado de trabalho no Brasil: você  não acha que no Brasil eu logo arrumaria uns trabalhos incríveis?”. Gente, eu sou jornalista e escritora, veja bem. Minha amiga, em outras palavras responde: A senhora está louca.

Em todo caso. Decido passar um mês no Brasil. E reclamo para um amigo que o silêncio de Berlim está me oprimindo e que eu preciso de um pouco de barulho do Brasil. “A senhora está louca”, ele diz.

Sim. É fato.

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3 comentários

  1. Mari

    Oi Nina!

    Seu texto é bem representativo dessa ambiguidade toda entre ser imigrante todos os dias e as opniões alheias.
    Talvez só quem já ousou ir mais além da linha de conforto e se jogou nesse mundão consegue entender as contradições existenciais cotidianas pelas qual as pessoas num momento SEA passam.
    Eu acredito que é possível chegar num ponto onde a SEA pode ser substituída por um QSFT ou seja, que se foda tudo, daí as opiniões alheias não irão mais interferir ou ser vistas como relevantes.
    Só conhece o sabor de voltar aquela pessoa que se foi. Só sabe o quanto é duro restar aquela pessoa que não pode partir. E as opniões formadas sobre tudo, serão sempre opniões.
    O negócio é ser feliz lá e aqui, podendo gritar que lá é aqui são bons e ruins, pois será a senhora louca a única capaz de dar um passo à frente e de saber o que realmente ela quer ou não dessa vida passageira.
    Abraços de uma outra louca,
    Mari

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  2. Debora

    Já passei por isso que vc está passando agora. Férias em um lugar ensolarado ajudam. Infelizmente tenho que te falar que agora vc não vai ser plena em lugar algum. Sempre sentirá falta do que há de bom no outro lugar

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