No Dia das Mulheres: umas palavras mandadas da Alemanha

feminism berlin

Há um ano me aconteceu uma daquelas coisas malucas. Estava atravessando a rua onde moro em Berlim e uma menina com uma máquinha fotográfica me parou. Ela disse que trabalhava para um site e começou a converser comigo. Nesse dia, em uma daquelas coisas malucas, eu olhei para a cara da mulher e surtei:

“Eu moro aqui porque ser mulher no Brasil é muito ruim! No meu país a gente não pode andar na rua sozinha. E também não pode envelhecer. Sim, no meu país eu estou velha demais para arrumar um namorado. O meu país é o campeão de cirurgia plástica no mundo! Aqui em Berlim a gente pode ser livre.”

Eu não sei porque falei essas coisas para uma desconhecida na rua. Mas…

Algumas semanas depois minha cara estava estampada no “Humans of Berlin”, que eu descobri que era um site mega super ultra hipster.

Enquanto pessoas se engalfinhavam por causa da minha declaração e outras diziam que me amavam, eu pensava: “Cara, você não toma jeito, você muda para o outro lado do mundo e não para de fazer discurso feminista para passante na rua, você é louca”. Detalhe: (a gente está sempre se chamando de louca. E não, não é mudando de país que você larga todos os seus “hábitos”)

Mas por que eu conto isso? Porque nesse dia da mulher, queria dizer para vocês que eu estava certa no que disse para a tal moça do site cool.

Ser mulher em Berlim não é perfeito. Mas é melhor. Ser ser humano é complicado do mesmo jeito, ou mais, mas acho que ser ser humano é complicado em qualquer lugar.

Mas ser mulher aqui é melhor sim porque:

-A gente meio que pode envelhecer. O tamanho da pressão para ser jovem para sempre é 200 vezes menor. As mulheres de mais de 50 usam a roupa que bem entendem, podem ser punks, se eram punks. E não, elas não são chamadas de velhas loucas por causa disso.

_A gente também não é considerada assexuada se tem mais de 40 e não, os caras da nossa idade em geral não procuram meninas 20 anos mais novas. Nunca vi um Justus da vida por aqui, um cara de seus 60 anos arrastando uma menina de 28 anos troféu, nunca.

_Por sinal os homens não andam nessa posição de arrastar uma mulher (os detalhes fazem diferença).

-Não existe fiu fiu. E não, gente, a minha vida não é pior por causa disso, ela é melhor. Eu ando a noite de boas. Os caras não acham que só porque eles são homens eles têm o direito de falar o que querem na rua para mim. Outro dia me assustei porque um homem olhou na minha cara e me falou um “hello” na rua. Quase corri. Até que me dei conta que eu tinha finalmente desacostumado e parado de achar normal que os caras se sintam no direito de falar, pegar a mão, afrontar .

-Porque a gente não tem que ser magra, sarada, barriga negativa, plastificada para não se sentir um lixo. Se aqui existe plástica?  Existe, sim. Mas é umas 200 vezes menor que no Brasil. E a pressão dói infinitamente. Já escrevi que morando em Berlim eu parei de me achar feia. É verdade.

-As meninas de 10 anos podem, sim, tomar transporte público com as roupas que quiserem. Não vão passar a mão na bunda delas, coitadas, que ainda são crianças! Se isso acontecer, vai virar um escândalo nacional, porque isso é raro, muito raro. Uma passada de mão na bunda de uma criança vai ser chamada de assédio e vai sair no jornal.

Porque estou contando tudo isso? Porque isso prova que não é biológico mulher se foder! Porque pode ser diferente. E se é diferente aqui, é porque teve luta, teve briga, teve muita. Por isso nós não vamos parar! E sim, vocês vão ter que nos aguentar!

PS.Também não podemos parar na Alemanha, onde a situação não tem nada de ideal. To indo hoje para a marcha das mulheres em Kreuzberg. É seis da tarde. Depois eu conto!

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