Sobre as babás: vocês vão mesmo fingir que não estão vendo?

baba

Sim, eu fiquei chocada com a foto da babá. Mas eu fiquei chocada só um pouco. Eu sou brasileira e sei que é assim.

Uma das minhas histórias preferidas sobre os absurdos do Brasil (quando quero chocar a audiência européia) é sobre as babás de uniforme na praia. Elas, de uniforme de verão, short e camiseta branca, abaixadas brincando com uma criança na areia enquanto a mãe lê uma revista e o pai lê o jornal. Ninguém acredita quando conto.

Já vi essa cena centenas de vezes. E nunca achei normal. Mas morando fora do Brasil isso fica mais chocante, sim.

Mostro a foto que viralizou por aqui para o namorado com vergonha. Não é uma competição. A Alemanha tem o nazismo. Temos a escravidão. Cada um tem seus demônios, na verdade cada um tem vários demônios, milhares. O que me choca é que muita gente ainda não veja o demônio como um demônio e tente negar que o Brasil é:

Escravocrata.

Racista.

E que nós, brancos de classe média somos, sim, na maioria, uns mimados. Uns servidos. Uns playboys. E neguinho que eu falo é nós.

Nada, nada contra as amigas que têm babá porque precisam trabalhar. Se eu tivesse filho no Brasil, também teria. Ela usaria uniforme? Não. O uniforme não é nada? Não, o uniforme é muita coisa, acho. É um símbolo. É um símbolo forte e horroroso. É divisão de castas. Ela trabalharia no final de semana empurrando o carrinho do meu filho enquanto eu ando na frente com meu esposo? Não, claro que não. Como sei que minhas amigas mães também não fazem isso. Contrário. As tratam como profissionais que são, com o maior respeito. E são gratas a essas pessoas que fazem esse trabalho importante que é cuidar dos seus filhos.

Agora, essa cena que nos fez brigar tanto no Facebook é, sim, assustadora. Acho ótimo que os nossos fantasmas apareçam para nos assombrar. Ótimo. E acho assustador que as pessoas fiquem com medo do fantasmas e neguem que os estejam vendo. “

É só uma profissão”. “Ela ganha bem”. “Eu gero empregos”.Gente, o buraco é mais embaixo, não? Quem não quer ver e quer continuar brincando de país escravocrata do século 19, tudo bem Mas acho que um dia vocês vão ter que explicar isso para os seus filhos.. #prontofalei

 

 

5 comentários

  1. Babe, se você acha que na Europa ninguém tem babá uniformizada, tá precisando fazer amigos nas classes ricas também. Não é porque os seus amigos acham absurdo que essas coisas não existem – isso é uma miopia bem típica de todo mundo que fica reclamando de tudo o tempo todo, e gritando CORTEM A CABEÇA DELE! pra qualquer coisa que aparece na Internê.

    Nas grandes cidades da Europa é só prestar atenção – tem muita gente com babá. Todas gringas, imigrantes, e andam uniformizadas. Não é exclusividade do Brasil não. Tem muita brasileira que viaja pra ser “au pair” (que nome chique) nos USA e cuidar de bebê americano, e ninguém acha ruim não, e nem elas. Nos USA são notórias as babás que trabalham para as famílias ricas e ganham a maior grana, pagam faculdade, viajam. Tem babá também, e uniformizada.

    Eu trabalhava na Italia e ouvi dois casais em Parma comentando o absurdo que era não conseguir encontrar uma babá que falasse mais de duas línguas e que aceitasse trabalhar domingo – quase me candidatei na hora, pq eu ganhava uma mixaria no restaurante onde trabalhava. E não ia me achar diminuída nem humilhada por fazer isso. Trabalho é trabalho.

    Uniforme é roupa de trabalho. Muita gente usa uniforme e inclusive com orgulho – cozinheiros, militares, policiais, técnicos de diversas especialidades, engenheiros, fiscais. Ele te distingue como tendo uma especialidade, e comanda respeito.

    Eu não tenho e provavelmente nunca terei grana pra pagar babá, mas adoraria – porque sou microempresária, trabalho pra cacete, limpo minha própria casa e sei que se tiver filhos vou ter que criá-los pendurados nas costas, porque não vai ter como contratar alguém pra me ajudar. Não tenho direito a licença-maternidade, nem férias. Não tenho grana nem pra ir viajar 5 dias no fim do ano, pq tudo vai pra empresa, imagina pagar babá? Mas adoraria. Fds inclusive, pq no fds EU TRABALHO.
    Acho animal quem pode se dar ao luxo de ficar em casa criando os filhos enquanto o marido paga as contas da casa – que massa que você tem alguém que pode falar “deixa comigo” enquanto você vai fazer o trabalho mais importante do mundo.
    Eu não vou ter uma coisa nem outra, mas contrataria babá sem pensar se pudesse.

    Não acho nada de errado em ser babá, e nem em ter babá, se você tem grana pra isso. E se você tem a grana pra isso, você faz o que bem quiser com a sua grana, afinal ela é sua.

    Sorte deles de ter essa estabilidade e conforto financeiro, no fim das contas.
    E tá na hora de parar de querer dar pitaco na vida alheia. Tem coisa MUITO PIOR rolando pra dar pitaco. Raiva social não vai ajudar em absolutamente nada.

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      • Nina, desculpe, mas aqui na Alemanha tá cheio de au pair, que é uma babá quase em regime de escravidão. Se informa, fia.

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  2. Na França também nao tem nao. Fui baba aqui durante um ano e convivi com um monte de outras babas. Tenho amigas que têm babas. Presto muita atencao na coisa das babas, você ve que sao babas porque em geral sao, bem, estrangeiras (africanas, asiaticas) com crianças loirinhas. Mas ninguem, NINGUEM, usa uniforme. Professor de universidade nao tem secretaria. Etc… A gente é um bando de mimado.

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  3. Me sinto à vontade para falar, porque deixei meu filho na creche a partir dos 6 meses e tive que ter uma empregada que dormia em casa uns quatro anos para cuidar dele à noite para poder realizar o curso universitário e trabalhar, ma o que me choca nesta história e a perspectiva da criança, pois não terceirizados só o cuidado, mas também o afeto e isso pode ser marcante para o resto de nossas vidas. Uma dica…filme: caminhos cruzados fala sobre as babas / empregadas domésticas negras americanas na década de 60….maravilhoso!

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