Ficando doente na “comunista” Alemanha

doente

Eu reclamo da Alemanha. Muita gente reclama (hoje, nove da manhã, juro, passou uma passeata de adolescentes na minha porta contra o capitalismo). Mas depois de quase dois anos morando aqui direto, acho que estou aprendendo (ainda) o que é viver em um país com baixa desigualdade social. Um país rico. E com base social democrata.

Não se morre de fome aqui ou na fila do INPS (sou de época) a não ser que você seja completamente à margem do sistema, o que significa não ter nem uma carteira de identidade ou um número de seguro social.

Pois fiquei doente. Uma doença atrás da outra. Coincidentemente ao mesmo tempo em que o horror se instalava no Brasil. Então, bem, claro, não foi coincidência porque Freud é o nosso Rei. Na primeira crise de dor muscular na coluna disse para o médico: “ é o golpe, o golpe, o Brasil está sofrendo um golpe de estado!!!”. Ele fez uma cara meio triste e concordou.

Na Alemanha é assim: a saúde é privada, mas é obrigatório ter plano de saúde. Existe um que é o do governo. Esse é o mais comum. O para pessoas menos diferenciadas, o do povo. É o que eu tenho. Ele é pago pelo trabalho do meu marido (é obrigatório qualquer firma pagar o plano de saúde). Se eu ganhasse mais que ele e tivesse um emprego fixo, a minha empresa pagaria o meu e o dele. De lá seria descontado. E se eu não tivesse marido, nem emprego, ou fosse freelancer, como eu teria plano de saúde, já que é obrigatório? Sem emprego ou sem grana pra pagar, o estado pagaria o meu plano. E isso daria para mim as mesmas condições de atendimento de qualquer um.

Ah, assim como no caso, por exemplo, de creches para crianças, quem ganha mais paga mais. Quem ganha menos, paga menos. Sim, uma ditadura comunista, diriam os fãs do pato!

Pois bem. Com o meu plano de saúde, que é o mesmo dos desempregados, fui atendida em dois hospitais alemães.

Um deles é maravilhoso.As enfermeiras e os medicos falam ingles melhor que eu (o que não é tão difícil). Com febre e uma crise de coluna ao mesmo tempo, fui atendida por uma neurologista e um clínico. Fiz todos os exames e muito bem tratada.

Como antes de ter febre e uma infecção urinária eu travei a coluna, fui a um ortopedista. Ele foi ótimo e me receitou acupuntura. São 10 seções de acuputura DE GRAÇA. E boa. “Ah, mas você paga o plano, ou o trabalho do seu marido paga.”Pois a minha amiga que é desempregada tem acesso aos mesmos serviços. Inclusive, foi ela que me indicou a tal clínica.

Se eu quiser fazer acupuntura porque to com vontade, vou ter que pagar e vai ser caro (tipo no Brasil ou mais). Mas se o médico recomendou, é de graça. O mesmo vale para qualquer tipo de terapia, inclusive psicanálise (que infelizmente é pouquissimo difundida por aqui, Hitler tentou matar a psicanálise e, na Alemanha, pelo menos, conseguiu).

Minha prima, casada com um diplomata e com um plano de saúde internacional dos deuses, precisou ficar internada aqui na Alemanha. Dividiu o quarto com uma faxineira. Não reclamou (na minha família as pessoas não são dessa laia de quem se vangloria de ser  diferenciado, deus me guarde! Pelo contrário, ficou encantada ao ver que todos tinham acesso à mesma coisa). O hospital era muito bom (com uma tradição de ter médicos CUBANOS como professores). O mesmo aconteceu com meu cunhado diplomata. Nada de quarto privativo no melhor hospital de Berlim (público, como quase todos os hospitais daqui).

Esses luxos de apartamento em hospital são raríssimos (deve ter, sei lá, pra uma princesa? Acho que nem para isso. Meu marido ficou em uma rehab depois de um AVC onde estava internada uma princesa árabe)  O normal é dividir. Hospital não é hotel. Não vai ter manicure, não vai ter cantina chique, não vai ter decoração de design. Mas vai ter saúde. E vai ter para todo mundo.

Pagava uns 300 reais por Zoloft por mês no Brasil (remédio que tomo para meu distúrbio de ansiedade crônico). Aqui pago 5 euros (20 reais). Isso porque está na receita que o médico me deu que eu tomo porque eu PRECISO desse remédio.

É bom ficar doente na Alemanha? É horrível, como em qualquer lugar. Ainda mais porque você está na Alemanha, e, socorro, eles falam alemão!

Mas pensar que você não está tendo o tratamento de hotelaria (porque é classe media) enquanto tem gente implorando por um exame e morrendo porque existe fila para esse exame é um alento, sim.

Ah, nas minhas idas a hospitais (foram 3 vezes), passei por uma experiência bizarra em um PS bem do leste. A enfermeira virou para mim e disse: “dor de coluna não é emergência, o que você está fazendo aqui??”(imaginem uma alemã oriental muito brava) E eu: “mas eu estou com muita dor!!!, Não precisa brigar comigo.” Ela: “se não gostou pode levantar agora mesmo e procurar uma farmácia.”  Hahha!

O leste e oeste ainda são muito diferentes em Berlim e eu me senti em um hospital comunista, com a médica e a enfermeira olhando para a minha cara e deixando claro que não havia espaço para frescura. Foi quase um cala a boca e não foi bom. Mas foi engraçado. E juro, juro mesmo. Até na hora eu ri.

Mas eu é que não volto lá. Conselho. Se ficar doente na Alemanha e for parar em um hospital com enfermeiras e médicas más, seja grossa! Depois disso elas te respeitam, te amam e quase perguntam; “ta melhor, querida?”

3 comentários

  1. Nina, <3. Queria que meus amigos coxinhas que falam "se vc defende tanto o Haddad, pq mora em Berlin" lessem seu blog todos os dias. Assinado: a mulher louca que fez a tiete e pediu foto com vc numa manifestação contra o golpe há alguns meses.

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  2. Perfeito tudo o que vc falou,com um porem ,se vc tem um mega ,super seguro saude privado e carissimo diga-se ,vc tem sim tratamento diferenciado ,tipo quarto so pra vc, medico chefe da clinica te atendendo pessoalmente,de resto é isso mesmo uma excelente extrutura de saude,e tem muito brasuca reclamando ,mas deve ser porque no Brasil usavam o Einstein, provavelmente.

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