As prioridades no estado de exceção (esse não é mais um texto sobre o Duvivier)

 

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Eu podia escrever sobre o Gregório Duvivier e a Clarice Falcão (o assunto do dia) e ganhar um monte de clique. Talvez meu texto viralizasse, assim como o do Gregório. Mas amigos, não vou, não consigo, não posso. A lista de prioridades muda dentro de um estado de exceção.

E, por mais que eu tente, só consigo pensar na polícia atacando as pessoas, na minha angústia e na dos amigos. Na crise política (meu deus, como vamos sair dela?) e na crise econômica (que acho que logo vamos sair dela) e na crise do jornalismo (não sei como vamos sair dela, se alguém souber me avisa).

A lista de crises é grande demais e com isso a lista de prioridades também muda.

Ficam para trás as pequenas mágoas, os pequenos assuntos e alguns assuntos grandes também, mas que não são relacionados com golpe e crise econômica e o jornalismo ruindo. Por exemplo:

Fofocas e polêmicas menores

Só ligo para aquelas que têm a ver com o assunto golpe. O que significa que se o Gregorio e a Clarice entrassem agora, sei lá, num tribunal de divórcio litigioso porque um deles fez magia negra com gatos eu não iria dar a mínima.

Minha vida afetiva

Ok, estou casada. Mas qualquer briga que tiver com o bofe eu também não ligo muito. “O que é isso diante de um golpe?”. Antes, poderia ficar dois dias chorando por causa de uma briga. Hoje, choro duas horas e depois digo: “tenho assuntos mais importantes para pensar.” O que aumenta a briga, porque nada pode ser pior para alguém em uma briga do que ouvir que ele não é importante.

Amigos

Não briguei com nenhum por causa do golpe e nem vou. Tenho sim amigos que acham que não foi golpe e o amor e a relação não mudou em nada. Apenas não tocamos nesse assunto. Mas, por outro lado, sou capaz de fazer amizade fácil com gente que ache que sim, foi golpe. Quer ser meu amigo? Fale que foi golpe, pronto.

A vida não é fácil em estado de exceção. A vida não é fácil em momento de ruptura democrática (e só essa palavra já me assusta e angustia). A gente chora, a gente fica com medo. E a única prioridade nessa hora, amigos,é sobreviver a tudo isso sem ficar maluca. Que a gente sobreviva, amigos! Que a gente sobreviva…

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8 comentários

  1. José Antônio Morato Mariano

    Legal Nina. Conheço você através da entrevista do Xico Sá que é meu ídolo por tudo que ele é, não é por uma coisa só.
    Sinto a mesma coisa, tenho de me esforçar para falar amenidades nesse tempo de exceção. E perdi alguns conhecidos e amigos, talvez tenha sido por ser o motivo e a hora certa. Até.

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  2. fernandoalvespinto

    Adoro você Nina. A gente se conhece pouco mas esse blog ajuda do meu lado, e se quiser links pros meus filmes é só falar. E sim: é patético como a lavagem cerebral da mídia contamine a negação do golpe. Foi, é, está sendo (endo, endo, endo…) Golpe. Beijo

    Curtido por 1 pessoa

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