Quando o assédio mora ao lado (literalmente)

medo

 

Em 2013 eu morava sozinha em um apê em São Paulo (Perdizes/Lapa). Um vizinho decidiu que eu fazia muito barulho quando subia a escada e fechava a porta. Por isso, o homem, casado, pai de família, “bom cidadão”, passou a gritar coisas como “essa carioca desgraçada, pensa o quê?”.

Na época fiquei com muito medo, pensei em falar com o síndico, mas o meu agressor falou antes. E o síndico do prédio, hétero, pai de família, “bom cidadão”, me deu uma bronca porque  tinha recebido uma reclamação formal de barulho ao subir a escada. Era um problema que acontecia comigo e com “outra mulher solteira que andava de salto de madrugada”. Devíamos ser as únicas mulheres solteiras do prédio e, além de assediadas, estávamos sendo acusadas de andar.

Nesse encontro com o síndico, eu disse que era para ele chamar a polícia. Que ser chamada de carioca safada era crime, subir a escada, não. Devo ter gritado alto o bastante.

O homem vizinho nunca mais gritou e passou a me cumprimentar.

Na época, escrevi no Facebook, fiz escândalo. Muitas amigos comentaram comigo rindo. “E aí, e o vizinho?”, sorrisinho que significa “nossa-como-a-nina-é-dramática.”

Na mesma época, um dia fui comprar pão e o cara da padaria disse: “você é a moça que mora sozinha e trabalha escrevendo no computador de short e camisetinha, né?”. Sim, eu estava sendo vigiada e assediada. Eu apavorei. De novo, algumas pessoas riram. Outras levaram a sério. Mas os dois incidentes não foram registrados na polícia e ficaram marcados como “aquelas coisas normais que acontecem, fazer o quê?”

Normal? Não sei o motivo, mas hoje, mais de três anos depois e morando do outro lado do mundo, lembrei disso enquanto tomava café da manhã. Talvez porque  ache que o homem da padaria daqui seja um pouco assediador (um dia ele tocou no meu braço de um jeito esquisito). Parei de sorrir para ele, de ser a “brasileira legal.” Acho que resolveu.

Morando aqui do outro lado do mundo (como mulher e imigrante, olha só!!!) já passei por situações chatas porqu,e bem, a vida é chata.. Mas nunca, nem de longe, passei por situação assustadora de abuso como essas duas que vivi em São Paulo. E que não foram as únicas.

Antes, em Pinheiros, teve também as duas vezes que arrancaram adesivos da Dilma e do Lula da porta da minha casa. Arrancaram em pedacinhos, um trabalho feito com fúria (e isso não tem nada a ver com candidato, não se arranca adesivo politico da porta de ninguém, essa é uma attitude de ódio, pronto.)

Como eu vivia desse jeito? Como eu convivia com esse tipo de ataque agressivo e conseguia dormir?. Eu não sei. Mas se lembrei hoje é porque não devo ter superado.

Sei que não sou a única, né? Se aconteceu comigo e as pessoas riram e acharam que eu estava exagerando e ninguém me mandou ir na delegacia… deve ser porque é normal. E a gente precisa estar muito longe para perceber que não é normal coisa nenhuma. É abuso grave.

Imagina se tirassem, por exemplo um A de anarquia que wu colasse na porta aqui em Berlim com fúria e rasgassem em pedadicinhos? Acharíamos que eu tinha um vizinho neonazi, né? Ainda mais na Alemanha!

Pois é, pessoal. Eu tinha vizinhos fascistas. Vários. No Brasil. E hoje, assim, do além, acordei lembrando disso tudo e por isso grito um recado: se alguma coisa parecida acontecer com você aí no Brasil, isso não é normal, não!

Só de lembrar, aqui de longe, me deu medo. Foi preciso esforço para não ter um ataque de pânico. Mas sabem como é… coisa de “mulher dramatica”. Só que não.

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