Nós somos os espanhóis da crise de 2012 (e ainda estamos em negação)

 

manifestaciones-espanaNo fim de 2013, vim para Berlim ficar seis meses. Era meu test drive para uma vida nova. Naquele tempo, que já parece tão distante, a cidade estava lotada de espanhóis desempregados. Eram jovens de todas as profissões que tinham se ferrado, basicamente.

Na minha escola de alemão, lembro de sugerir para uma jovem médica portuguesa  (eles também estavam em situação desesperadora) que ela devia ir ao Brasil participar dos Mais Médicos. Como é distante aquela época em que eu achava sinceramente que alguém ir trabalhar no Brasil poderia ser uma solução para a vida,.

Lembro que com um dos colegas eu briguei feio depois de comentários racistas. Depois de muito bla-bla-bla sobre a superioridade européia, ele me disse: “a diferença entre o Brasil e Espanha é que o Brasil é pobre.”

Nossa. Naquela hora me baixou uma Val Mariochi interior e comecei a gritar: “O Brasil é rico, rico! Quinta economia mundial! Quinta economia mundial, ricoooo!”.

Eu sabia, óbvio, não sou louca, que a desigualdade era galopante. Mas tínhamos saído do mapa da fome, tínhamos as cotas, abrigávamos refugiados. A gente era foda.

Começo de 2017 e eu não tenho a menor dúvida em dizer que os espanhóis agora somos nós. Com a diferença de que tomamos um golpe, somos uma piada no mundo inteiro, um vexame, aprovamos as leis mais absurdas, temos a polícia mais assassina, estamos prestes a perder nossas garantias trabalhistas e a ter uma reforma da previdência que assustou até a ONU. A gente é um lixo.

Não ligo para o que eles pensam e não é esse o ponto. O que interesssa mesmo é que somos os espanhóis sem emprego e sem pespectivas. O número de desemprego entre joves de 18 a 24 anos (a idade dos meus colegas da época) é de 26%. E está subindo.

No meio dessa tragédia, acho que algumas vezes ainda agimos como o meu colega racista. “Não vai me atingir. Não vai chegar na gente”. Ouço isso direto. E por que não vai chegar? Você se acha imune por ser de classe média remediada e branco? Se acha praticamente superior na escala do horror como o meu colega espanhol?

Eu trago más notícias.

Já chegou.

Os espanhóis sem emprego somos nós.

E a gente ainda por cima tomou um golpe.

Como vamos sair dessa situação? Eu não faço a menor idéia. Mas ando me empenhando em aprender alemão.

 

 

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