Ser escritor é um trabalho. Pague a porra do escritor!

Man shouting with chalk speech bubble

De um tempo para cá, as pessoas decidiram que não precisam pagar escritor/jornalista. Não sei exatamente como isso aconteceu. Nossa profissão (ei, profissão, entenderam, é profissão!) nunca foi famosa por pagar bem. Aceitamos. Mas agora algumas pessoas decidiram que ela não é mais paga. Vamos escrever para grandes empresas lucrativas de graça. O carregador de revista ganha. A gente não. Em um mês recebi três convites para ser colunista de diferentes midias. Legal, né? No início até achei. Até que quando perguntei quanto pagava recebi a mesma resposta: “Infelizmente não tem cachê”. Assim. Como se fosse a coisa mais normal do mundo.

É isso mesmo. As pessoas querem que eu trabalhe de graça. E por alguma razão muito louca, acham que eu aceitaria isso. No que eu grito: MAS POR QUE EU ACEITARIA, MINHA NOSSA?

Eu queria entender quem inventou a idéia de que escritor/jornalista não faz um trabalho que merece ser pago. Eu queria entender como isso se disseminou.

Imagina se eu chego no cabeleireiro e falo: “olha, escolhi você para cortar meu cabelo. Quero dar uma debastada e fazer uma franja bem curta. Mas olha, infelizmente não tenho dinheiro e não vou pagar.”

Vou na padaria: “moço, eu quero um pão. Tem que ser vegano e gluten free, mas eu não vou pagar.”

Como essa idéia de que escrever não é trabalho cresceu? “Ah, porque hoje em dia todo mundo escreve na internet, então acham que todos podem fazer.” Essa foi uma das coisas que eu e outra amiga escritora pensamos como hipótese quando recebi meu segundo convite para escrever de graça em duas semanas. Até que pensamos um pouco mais. E…. ué! Se é tão fácil por que nos convidam? Se todos podem fazer, por que me chamam? Se é tão fácil, deviam fazer eles mesmos, não?

“Ah, mas você tem nome”, diz outra amiga. Tenho sim. E nunca vi alguém escrever para um médico que tem um certo nome na especialidade dele, porque trabalhou anos e anos fazendo isso, claro, e falando: “quero te convidar para ser meu médico, mas escuta, eu não vou pagar”.

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Não custa explicar o óbvio, já que parece que as pessoas não entenderam o básico. Mas ser escritor e/ou jornalista é uma profissão. Escrever uma coluna, um texto, é um trabalho. A gente tem que ter a idéia, fazer pesquisa, escrever, reler. Algumas vezes somos capazes de fazer isso muito rápido, inclusive. Mas por quê? Mano, porque a gente é profissional! Porque fazemos isso há anos, muitos anos. Pedir para alguém escrever de graça é desconsiderar seu trabalho, fazer com que ele vire inexistente. Logo, a maior falta de respeito que você pode cometer com um escritor/jornalista. Vocês estão sendo nojentos quando fazem isso. Pensem se eu fizesse o mesmo com você? Te pedisse para ir ao seu escritório escrever email convidando pessoas para escrever de graça, ter reuniões sobre pessoas que podem escrever de graça mas… de graça?

Escrever. É. Um. Trabalho. É uma porra de um trabalho, eu grito pela janela metafórica. E pego emprestado um verso do Pessoa, que receberia muitos convites hoje para escrever anúncios de graça com frases fofas que, ESCUTA, não são dele: “Estou cansado. Porque a certa altura da vida a gente em que estar cansado.” E vocês NOS RESPEITEM.

Um comentário

  1. Engraçado como as palavras têm tão pouco valor pra essas pessoais. Parece-me, Nina, que os profissionais que têm o poder de mexer com as pessoas através do apoio das palavras, como educadores, escritores, servidores sociais, psicólogos, revisores, tradutores etc talvez não sejam valorizados porque a moeda tem mais valor que a palavra na sociedade em que vivemos. Tudo é lucro… :(

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