Síndrome de impostora, burra e inútil

impostora 

“Não sou nada, não posso querer ser nada”. Desde a semana passada sou um Álvaro de Campos, o heterônimo mais perturbado do Fernando Pessoa, sem a genialidade. A síndrome da burrice me pegou em cheio.

“Não tenho o que escrever.” “Por que as pessoas me lêem?”. “Gravar um video, mas o que eu tenho para falar sobre o mundo?”.

Escrever esse texto não é fácil porque escrevo de dentro da crise de protagonismo de mim mesma, uma coisa patética, quase engraçada.

Para ser escritor, você tem que ter alguma auto-estima. Se você se sente um lixo completo, você não escreve. Ou escreve e não publica. Imagina no dia que você quer se esconder publicar um texto “em todas as redes sociais?”. Pois é.

Comecei a me sentir burra depois de não entender nada do que acontece na minha aula de alemão. Passei a sair da aula achando que sou burra em todas as línguas, burra no geral, inútil mesmo. Uma idiota, uma fraca.

“Nossa, que milagre que ainda sei andar de bicicleta”. “Será que se eu pedir cigarro o moço vai me entender?”. Maldito alemão, que mata a minha auto-estima, minha confiaça e me humilha. E maldita síndrome do impostor, como disse ontem a minha amiga Natasha Madov, também acometida pela sensação de que somos farsantes, ruins, pessoas que nem deviam ter voz ou uma profissão na vida.

A síndrome do impostor, vocês sabem, atinge mais mulheres. Isso porque achamos o tempo todo que não merecemos. Desde sempre a sociedade nos disse para nos contentar com migalhas. Arrumávamos nossas cozinhas de brinquedo enquanto nossos irmãos, primos e amigos meninos “enfrentavam os batalhões, os alemães e seus canhões.”

Vez ou outra ela nos pega. Minha amiga artista ontem me escreve dizendo que não sabe mais desenhar. E eu penso que nessa mesma hora algumas neurocirurgiãs devem olhar para um cérebro aberto e pensar: “por que acham que eu sou capaz de uma coisa dessas?”.

Até Angela Merkel, aposto, às vezes deve sentar na sua mesa e dizer para si mesma:”o que estou fazendo aqui? Quem sou eu para pensar algo do mundo? Estou na carreira errada!” Você acha que esse pensamento já passou pela cabeça do golpista Michel Temer, por exemplo? Acham que ele senta na cadeira de presidente que ele roubou, com aprovação de 2 % e pensa: “o que estou fazendo aqui? Estou no lugar errado?” Claro que não. E Michel Temer é apenas um exemplo perfeito do pior tipo do mundo de macho adulto e branco sempre no comando.

Não quero comparar vocês com o Temer, amigos, claro que não. Na verdade, só quero publicar esse texto e me esconder embaixo da cama. Afinal, o que eu tenho para falar? Por que publico? Será que ainda sei escrever reportagem? Eu, fazer um video? Por que as pessoas se interessam?

 

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